"Não ao feminismo de elite. Muito glamour e pouco compromisso"

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09 Março 2017

Camisetas de Dior, chapéus fúcsias, Beyoncé. O feminismo chega às passarelas. Nunca foi tão glamouroso. Mas, para Jessa Crispin, 38 anos, autora de Why I Am Not a Feminist, contramanifesto que causa discussão nos Estados Unidos, são intervenções cosméticas, até mesmo perigosas, pois distraem dos verdadeiros objetivos. A solução? Voltar para o feminismo radical.

A reportagem é de Constanza Rizzacasa d’Orsogna, publicada no jornal Corriere della Sera, 08-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

As mulheres pensavam que podiam pulverizar o teto de vidro. Depois, Hillary Clinton perdeu. Onde está o erro?

No fato de confundir as operações estéticas com as sistêmicas. Convencemo-nos de que, se vestíssemos as camisetas “The Future is Female” [O futuro é feminino], as mudanças na sociedade – da luta contra a violência doméstica às políticas de apoio à família – viriam em seguida. Obscurecidas pelo glamour, esquecemo-nos das verdadeiras batalhas. O ponto mais baixo e ignorante do feminismo de elite foi tocado por Lena Dunham, quando declarou: “Eu nunca abortei, mas gostaria de tê-lo feito”. Como se tratasse de uma tatuagem.

Para as mais jovens, porém, o feminismo radical não agrada. O movimento #womenagainstfeminism, há alguns anos, tinha nascido por isso. Muitas se reconhecem no feminismo light de Taylor Swift. Por quê?

Porque ele permite pensar apenas em si mesmas. Porque é mais fácil cultivar o descompromisso do que se comprometer para mudar as coisas. Porque é inculcado nas mulheres que elas devem ser gentis para agradar, e que, se você for uma radical, ninguém vai querê-la.

Mas não é arriscado fazê-las se sentirem culpadas pelo modo como escolhem participar?

É como dizer que elas merecem um prêmio por fazerem ato de presença. Não há um único modo. Os direitos das mulheres precisam dos talentos de todas.

Você diz que narcisismo e “self-empowerment” são sinônimos, na realidade. Mas talvez seria errado para as mulheres serem ambiciosas? Por que não visar ao poder como os homens?

Era só o que faltava. Mas e como esse poder é usado? Se for só para obter dinheiro e posição, para conjugar no feminino o capitalismo masculino, então, de feminismo, não tem nada e não vai mudar nada. O que Sheryl Sandberg faz pelas mulheres normais? Por trás da hipocrisia do self-empowerment, há apenas a pergunta: “Onde está a minha metade dos lucros?”. Hoje, o progresso das mulheres é medido com quantas mulheres são diretoras executivas. Mas e as outras? Por que, assim que se tornou diretora executiva, Marissa Mayer tirou das empregadas o smart-working, tornando mais difícil conciliar maternidade e trabalho?

E a partir de onde é possível reiniciar?

Redefinindo valores e objetivos. Em todos os Estados Unidos, as clínicas de aborto são obrigadas a fechar. O mundo vai para a direita: os investimentos em planejamento familiar se reduzem, a mortalidade feminina aumenta porque se recorre a abortos ilegais. E isso nos países desenvolvidos. Milhões de mulheres, além disso, vivem em zonas de guerra, são migrantes e refugiadas. Por que o feminismo não se interessa por elas? É muito pouco glamouroso combater a pobreza?

Você escreve que se desperdiçam tempo e energias no feminismo de indignação online. Mas a internet não era um grande meio de denúncia?

Quando vamos caçar misóginos na web, devemos nos perguntar o que ganhamos com isso. Estamos criando uma sociedade melhor ou apenas arruinando uma vida? O que você conquista exatamente ao fazer com que alguém perca o seu lugar? Diminui a misoginia no mundo? O seu lugar irá necessariamente para uma pessoa melhor? Geralmente não. Ao contrário, cria-se um clima de raiva. Imitar atitudes de caça às bruxas não ajuda. Combate-se o sexismo mudando a cultura. Um trabalho difícil, lento e nada glamouroso.

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